Abaixo um texto que escrevi há algum tempo e que foi para uma lista de discussão (e publicado também no www.softwarelivre.org)
“O Brasil deveria seguir o exemplo da Índia pra desenvolver e exportar software….blá…blá…blá…”
Será?
“O que eles fazem lá é o que se chama Serviço de baixo valor agregado: meramente programação. Não é desenvolvimento(que é um serviço de alto valor agregado)…se quisermos oferecer soluções com o “estilo brasileiro”, com concepção e soluções pensadas aqui, o que representará um maior valor agregado e portanto maior remuneração, a Índia não pode ser um modelo…”
Debate na lista do PSL-Brasil:
[Estive fora uns dias e não pude acompanhar o desenvolvimento desta thread, e portanto, não sei se alguém citou os estudos que vou recomendar abaixo. Desculpem se for duplicação.]
Subsídios fundamentais ao debate são conhecer a realidade e o histórico da evolução do setor. A avaliação do momento é sempre limitada se o fazemos somente de observações instantâneas e baseadas exclusivamente em nosso próprio ponto de vista. Assim, sugiro irmos atrás de informações complementares para saber porque estamos da maneira como estamos e porque a India está do jeito que está. E como é que realmente estamos como é que realmente a Índia está.
Em 2002 foi feito um estudo comparativo dos setores de software de 3 países emergentes: Brasil, China e Índia. Este estudo foi organizado pelo MIT, com a participação de diversas instituições nestes 3 países. A parte brasileira foi realizada pelo Softex. Os resultados deste estudo podem ser encontrados aqui (correr a página até o final, texto “A indústria de software no Brasil…”).(link quebrado) Agora está aqui, link: A Indústria de Software no Brasil – 2002 – Fortalecendo a Economia do Conhecimento.
Tem a versão completa em inglês, a parte completa referente ao brasil em português e uma síntese da comparação em português.
Claro que todo este estudo foi feito em 2001, com a perspectiva do setor empresarial de então (que, de modo geral, não mudou tanto assim): software proprietário… Mas é uma base importante para compreendermos o momento atual.
Um comentário sobre o que disse o Spagnolo: para programar da forma que os indianos fazem, não precisa compreender inglês, basta compreender especificações UML. E, para isso, eles são hiper-treinados (ou talvez fosse melhor dizer adestrados?). Já ouvi um relato de uma empresa BRASILEIRA que queria testar 2 empresas indianas de desenvolvimento de software: enviaram a mesma especificação para 2 empresas e receberam de volta 2 implementações praticamente idênticas (até mesmo em coisas como o número de espaços de identação, nos pontos de inclusão de comentários, etc). Ou seja, não é só na leitura das especificações que eles são bem treinados, mas também nas práticas e processos sistematizados de desenvolvimento - uma coisa que brasileiro não é “muito ligado”…
O que eles fazem lá é o que se chama Serviço de BAIXO VALOR agregado: meramente programação. Não é DESENVOLVIMENTO (que é um serviço de ALTO VALOR agregado), porque não supõe criação, busca de soluções, planejamento, especificação, etc. É só mão-de-obra, literalmente - paga-se pelo trabalho das mãos dos programadores; e não cabeça-de-obra.
Se pensamos em criar empregos só em quantidade, o modelo indiano é válido. Desenvolvimento de software não é tão intensivo de mão-de-obra qto outros setores (construção civil, indústria mecânica, turismo, …) e dentro do desenvolvimento de software, o número de pessoas envolvida com programação é maior do que o número de pessoas envolvida com concepção e suporte, p.ex. Então, se só olhamos para a questão do número, sem nos preocuparmos com a questão do nível de agregação de valor e do salário, vender “capacidade de programação” é a forma fácil de ocuparmos mais gente. E tem muita gente vivendo disso, hoje. Conheço uns quantos estabelecidos aqui em Floripa vendendo serviços de desenvolvimento (basicamente programação) para empresas americanas, diretamente. Recebem em dólares, vivem em reais, implementam o que mandarem… Resolve-se o problema pessoal, mas não o do país.
Mas se quisermos oferecer soluções com o “estilo brasileiro”, com concepção e soluções pensadas aqui, o que representará um maior valor agregado e portanto maior remuneração, a Índia não pode ser um modelo…